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Desintoxicação de dados – Quantos personagens vivem em você?

Por que não expandir para a sua vida digital os cuidados da vida pessoal, principalmente no que diz respeito ao que você compartilha com cada pessoa que faz parte da sua vida?

Antes de começarmos e falar sobre aspectos específicos das mais variadas contas digitais que podemos manter na Internet, gostaria de começar com alguns passos anteriores. A ideia até o fim deste texto é ajudar a construir as premissas necessárias para organizar estas contas. Também acabei sugerindo uma primeira substituição de serviço, que foi inclusive a primeira que fiz, e sigo feliz assim há dois anos.

Com o tempo, este tipo de organização também deixa mais claro aquilo que você precisa manter, aquilo que pode mudar e os serviços digitais tranquilamente descartáveis – acredite, são muitos. Também deixa claro como você pode acessar cada serviço de maneira que os diálogos entre sistemas seja mais restrito.

O que vamos discutir nas próximas linhas é: por que não expandir para a sua vida digital os mesmos cuidados que você naturalmente toma em sua vida pessoal, principalmente com o que compartilha com cada pessoa que faz parte da sua vida?

Vida pessoal x vida digital

A mesma modelo da foto anterior agora se disfarça com óculos escuros e outros lenços e chapéus.

A complexidade de personagens que vivem dentro de uma pessoa naturalmente varia, mas eu não conheço ninguém que não escolha melhor no mínimo as palavras que serão utilizadas de acordo com quem as está escutando.

Na vida pessoal em carne, osso e boletos, cada indivíduo pode modular inteiramente o que vai compartilhar com outra pessoa. Se estamos numa roda de amigos, numa reunião familiar ou numa reunião de negócios, somos três personagens diferentes em vestuário, postura, gestos, informações compartilhadas e expectativas. Na reunião de negócios, pouco importa o seu apelido na roda entre os amigos ou as brincadeiras favoritas com os seus filhos. Na reunião com os amigos, pouco importa os detalhes financeiros discutidos na reunião ou se o seu primo que mora longe extraiu o dente do siso. E na reunião familiar, eu pelo menos deixaria de lado os detalhes daquela noitada que se estendeu até as cinco horas da manhã.

Trazendo estes aspectos para a vida digital, você acha conveniente que alguns poucos entes conheçam a sua vida financeira, as mensagens que você envia e recebe, as pessoas com quem mantém contato, o registro completo de suas compras, quantas pessoas moram com você, quantas pessoas você encontra diaramente e os locais onde isso ocorre, onde você trabalha, o fato de você estar infeliz no trabalho e enviando currículos, o seu endereço e até mesmo aqueles nudes enviados para ou recebidos do(a) crush?

Já pensou isto aplicado na vida real? Alguém que exigisse uma porção pequena das muitas informações que podemos compartilhar com as empresas na Internet poderia até ser preso ou processado. E como elas se baseiam na opinião bastante controversa de que foram os seus usuários que voluntariamente optaram por entregar todo o conteúdo descrito no parágrafo anterior, o cuidado tem que realmente estar nas nossas mãos.

É preciso, portanto, tratar tais empresas de maneira que elas interpretem apenas uma fração de você. Sabemos que elas são ávidas por dados, mas podemos controlar qual faceta iremos mostrar. Como num primeiro encontro com uma pessoa, não podemos exatamente interferir em todas as impressões que a outra pessoa terá de nós, mas podemos tentar moldar parte disso com o conteúdo e o jeito que falamos, as roupas que vestimos e as posturas que escolhemos.

Agora, se você é dessas pessoas que pedem emprego no Tinder e usam o Linkedin para o xaveco, talvez seja importante rever o comportamento não apenas de sua vida digital, mas também em como você encara as suas relações pessoais.

Estabelecendo as personalidades digitais

A mesma pessoa das fotos anteriores agora se disfarça com novo chapéu, de costas para a câmera.

Uma vez que entendemos a necessidade de criar certas barreiras entre as nossas distintas personalidades digitais, precisamos fazer um exercício que é imaginar todas elas. Vou dar como exemplo aqui parte do criei para mim, mas cabe a você entender um pouco sobre o seu uso de serviços digitais e estabelecer algo que faça sentido.

No meu caso, eu criei as seguintes personalidades:

  • Perfil pessoal: um e-mail que trato como mais pessoal, aquele que prefiro receber coisas como o boleto do aluguel, e que é o dono da linha de telefone celular. Possivelmente alguns contatos profissionais têm este número, mas o WhatsApp e o Signal são mais direcionados a contatos pessoais. Ligados a este perfil pessoal eu posso deixar as fotos que tiro com a câmera do celular, o backup do computador e dos arquivos do telefone, o gerenciador de senhas e talvez um ou outro app que use para me distrair, como a conta de Netflix, por exemplo.
  • Perfil criador de conteúdo: uma faceta mais pública. Tenho Twitter, Instagram e YouTube para administrar. Tenho este blog e alguns outros sites, como o B9. Ainda preciso manter alguns serviços específicos, como o Spreaker – onde o Mupoca é hospedado. Possuo algumas contas de e-mail ligadas a estas atividades – o motivo de elas serem muitas vai desde a necessidade de parecer corporativo a simplesmente poder operar separadamente coisas como o IFTTT. Além disso tem as operações de notas e contador, por exemplo. Poderia ser uma faceta separada, mas por enquanto vamos deixar aqui.
  • Perfil corporativo: E-mail criado pela empresa, que já acopla agenda. Não era uma conta Google, mas como boa parte do trabalho se dá em planilhas, acessos ao Analytics e Ads e criação de visualizações no Data Studio, uma das primeiras coisas que fiz foi criar uma conta para este perfil. Não preciso estar de olho em agenda e e-mail durante todo o dia e aos finais de semana porque emergências sempre são avisadas no WhatsApp pessoal. Há claro outros serviços corporativos que podem se ligar a este e-mail sem maiores problemas. Costumo pensar que este patrimônio pertence à empresa: deve ser fácil me desligar disso tanto para mim quanto para eles.
  • Perfis de compras: mas não sou um ávido comprador online. Claro que tem muita coisa que vale a pena, mas eu ando sofrendo, sim, um bocado sem poder ir a certos estabelecimentos durante o isolamento contra a Covid-19. De qualquer forma, a ideia de criar alguns perfis de compras foi apenas para isolar a navegação entre distintos e-commerces e apps.
  • Facebook: desde o escândalo com a Cambridge Analytica, eu isolo completamente a navegação do Facebook. Sim, eu sei que tem o WhatsApp. Sim, eu sei que existe o Instagram. Mas não ter o app no celular e somente abrir esta rede social fora dos ambientes em que outros cookies são fixados traz alguma paz ao coração. E é uma rede social em que entro estritamente em horário comercial, a trabalho. E também penso que criaria (se utilizasse) um perfil distinto para os famigerados apps de namoro. Sei que eles usam o Facebook obrigatoriamente como acesso, mas nada impede seres humanos de abrirem novas contas no Facebook desde que eles não as usem para espalhar fake news por aí. Ou pelo menos deveria ser assim.

Uma vez que estabelecemos estes perfis, podemos começar a fazer todos os exercícios possíveis para garantir a infraestrutura que cada um precisa. Quantos destes perfis você precisa carregar no celular? Quais apps você precisa para eles? Quantas contas de e-mail (ou mesmo alias, mas falaremos disso mais a frente) seria interessante manter?

Ter estes estilos de navegação e consumo de dados ajuda a planejar a sua relação com os diferentes apps que você tem instalados em seu telefone. Seria uma boa hora para checar se precisa de todos os serviços que aí estão ou se alguns já podem dizer adeus. Outro bom exercício é efetivamente pedir para apagar a sua conta e seus dados, e geralmente estes serviços pedem que você envie tal requisição por e-mail: você pode pedir uma cópia de todos os dados que eles mantém através do perfil e solicitar a exclusão total (e não apenas a desativação, fique atento) de seus registros. Uma rápida procura no seu histórico de e-mails pode assustar: o número de serviços em que você se cadastrou nos últimos 15 anos tende a ser gigantesco.

A criação de perfis é sim um exercício criativo, mas também de análise de sua navegação a partir desta divisão de tarefas. Então como uma nova maneira de olhar para as suas atividades digitais, vamos começar com a sua janela mais óbvia: o navegador.

O primeiro item Google que coloquei na geladeira

Tablet com o navegador aberto, tentando carregar a página do Google com o aviso de erro "This site can't be reached".

A dominação de um mercado como o de navegadores pelo Google não foi exatamente um mar de notícias ruins. Ele acabou com uma era de dominação do horroroso Microsoft Internet Explorer. Eu confesso que tenho muitos problemas pessoais com esta peça de museu da Internet porque minha primeira profissão foi o que hoje em dia, depois de muitas mudanças de nomes e atribuições, é chamado de front-end. Você deixava o site lindo, o HTML e o CSS impecáveis e tinha que ficar fazendo gambiarras para tudo funcionar no navegador padrão dos computadores Windows.

O Google Chrome também começou leve. Rodava mais rápido que o Mozilla Firefox – que precisou ser reescrito para voltar a ser uma alternativa. Vinha de um projeto opensource. Não tinha como dar errado. A verdade é que por um lado o Google Chrome ajudou a tornar os sites da Internet melhores e mais rápidos. E as extensões se multiplicaram para tornar a vida de quem utilizava este navegador bastante conveniente. O custo, claro, foi a privacidade de todos os seus usuários.

Era preciso parar. Limpar todo o histórico, cookies, senhas salvas e tudo mais. Não está desinstalado porque, como na época do maldito Internet Explorer, há sites que hoje só abrem nele. Não são muitos, mas eles existem e é bem irritante em muitos momentos. Que o Chrome fique única e exclusivamente para eles.

Eu não me alongarei agora no mérito de que tudo o que você navega se torna parte da imensa pilha de dados que esta gigante da computação tem sobre você porque o motivo para a troca neste momento é viver ao máximo com os seus perfis e ver como eles se comportam. Portanto use o seu Chrome pela última vez para baixar um navegador que permita compartimentar a sua navegação. O meu escolhido foi o Mozilla Firefox com sua maravilhosa extensão Multi-Account Containers.

Esta extensão permite a você criar diferentes perfis e abrir abas dentro deles. Por exemplo: você pode abrir um perfil para logar suas contas pessoais sem clicar no famigerado botão de “adicionar outra conta” de sua conta Google para abrir, num outro perfil, sua conta corporativa. Você pode ter diferentes perfis logados ao mesmo tempo e até navegar em todos eles: se estiverem em contâineres diferentes, os cookies, trackers e afins não se conversam. É como se na prática você estivesse usando navegadores diferentes para cada perfil.

Print Screen da Área de configuração da extensão Multi-Account Containers para o Mozilla Firefox.
Você pode configurar diferentes contâineres com cores que ajudem a identificar que perfil de navegação você está utilizando
Print screen do navegador Mozilla Firefox, com três abas abertas, sendo que cada uma possui uma identificação com cor para diferenciar os perfis (ou contâineres) do plugin Multi-Account Containers
Aqui, um pouco da prática: a aba do GMail está totalmente isolada da navegação da aba em que eu procurava uma foto para este post e da aba em que eu escrevia o post.

A ideia de compartimentação não nasceu com os navegadores, mas está relacionada ao que há de mais seguro e privativo. O sistema operacional recomendado por Edward Snowden, QubesOS, tem como premissa que todos os usos do computador podem ser isolados, como se na prática você estivesse utilizando cinco ou seis máquinas diferentes ao mesmo tempo se estivesse utilizando cinco ou seis aplicativos. Aqui estamos dando um pequeno passo nessa direção: isolar diferentes serviços que antes abriam todos juntos e misturados no Chrome para um isolamento um bocado mais seguro no Firefox.

Outro costume que deixei configurado no Firefox é o de limpar todos os cookies, trackers e caches sempre que eu fechar o programa. Deste jeito, vamos dificultando mais um pouco a criação de personas a partir da sua navegação por outras empresas. Nós é que temos que ter o poder de dizer para elas quem somos e o que precisamos, não é?

Desta maneira, consegui ir sentindo com o tempo que perfis precisavam ser divididos em novos perfis, que aplicações tiveram que, como o Facebook, ser isoladas e que outras funcionam bem juntas. Claro que há outras extensões interessantes para tornar a navegação mais segura, como o Privacy Badger e o HTTPS Everywhere, mas deve haver um começo para tudo.

Permita-me também saber um pouco mais sobre a sua experiência com os perfis e contâineres. Eu sei que as redes sociais não são um mar de privacidade, mas esta conversa merece ser bem pública. Então me avise lá no Twitter como está sendo e até mesmo se este papo de perfil não serviu para você. Como planejo montar mais materiais que usam esta ideia, devo pensar em alternativas caso ela não seja lá muito popular.

Fotos: Ava Sol no Unsplash, Jonathan Kemper no Unsplash.

Por Luiz Yassuda

Autor deste site. Diariamente comentando os absurdos cotidianos lá no Twitter (@luizyassuda) e eventualmente nos podcasts Mupoca e Braincast.