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Conta Google – uma relação de 16 anos que precisa ser discutida

Uma relação de 16 anos que terá um fim – não há como fazer isso sem algum sofrimento.

Se você tem vinte e poucos anos ou menos, provavelmente sequer consegue conceber um mundo sem serviços Google. Mas houve um tempo em que fazer buscas na Internet nos levava ao Yahoo ou a algum site que este veterano serviço da Internet acabou comprando com o tempo. Havia também o Altavista, mas nós lusófonos acabávamos por encontrar resultados para lá de duvidosos em sites como Cadê e Aonde. Então surgiu o Google.

Ele era radicalmente diferente. Foram duas coisas muito importantes que o tornavam melhor, muito melhor do que qualquer outro site que de dedicasse a ser um catálogo dos sites existentes na Internet: a sua capacidade de catalogar sites sem depender de um cadastro – na prática, sites de busca eram um rolodex digital até então – e um método que avaliava qual site provavelmente teria a melhor chance de entregar a informação que estava sendo buscada a partir de seu conteúdo e de quais sites o utilizavam como fonte. O serviço foi lançado em 1997 e em 2002 já havia se tornado praticamente sinônimo de buscar uma informação na Internet.

Google também passou a ser um sinônimo de empresa mais bacana do negócio chamado Internet, da nova economia, de qualquer coisa que pudesse ser comparada.

Criaram um jeito de enfim remunerar o adolescente que produzia sites muito acessados. Para cada clique dado, um décimo do valor do anunciante iria diretamente para as mãos do criador de conteúdo. Era bem revolucionário. E foi uma forma de o Google passar a aplicar o que ficou sendo conhecida na época como Teoria da Cauda Longa: ao colocar banners em diversos sites pequenos, o inventário disponível para venda passava a ser comparável ao dos grandes portais.

Havia um tempo livre para qualquer funcionário desenvolver seus projetos pessoais – e assim nasceu o Orkut, a rede social que nos ensinou o que era uma rede social. Só se entrava com convite. Estar dentro de serviços como este era com certeza ser uma pessoa antenada e descolada.

No mesmo ano, veio o GMail com a promessa de oferecer um espaço gratuito inimaginável para a época: 1 gigabyte de espaço. As caixas gratuitas da época deviam oferecer dez ou vinte vezes menos. A promessa era: nunca mais precise apagar um e-mail. Exato! Como seria possível lotar um gigabyte inteirinho com leves e-mails? Daria até para mandar arquivos maiores, sem muito problemas.

Daí para frente, foram muitos os serviços que surgiram ao redor do e-mail. O calendário acoplado à conta de e-mail, um serviço de leitura dos seus sites favoritos da Internet, um comunicador instantâneo mais leve que MSN Messenger, a bilionária compra do YouTube, a nem tão brilhante compra do Jaiku, umas tentativas um tanto quanto esdrúxulas como o Google Wave e o Google Buzz. Mas a ideia é que entre serviços comprados e serviços novos, aquela conta de e-mail aberta lá atrás em 2004 começou a ganhar muitas funções: vídeos, mapas, anotações, listas de tarefas, documentos, planilhas, apresentações, fotos, assistente pessoal. Também vimos a entrada triunfal no mundo dos navegadores, com o Google Chrome tornando-se líder de um mercado durante anos dominado pela Microsoft e seu horroroso Internet Explorer, e dos smartphones com a plataforma líder – Android.

Além dos próprios serviços Google, que continuavam se multiplicando, em um certo momento tornou-se possível ligar a sua conta Google em outros serviços. Muitas vantagens: não havia a necessidade de lembrar de mais uma senha e a praticidade de resolver a inscrição num clique. Afinal, com tantos serviços existentes, quem é que não estaria logado no Google naquele momento, não é mesmo? E é claro que todos os e-mails desses serviços iam caindo no GMail, que enfim foi lotando… Até que magicamente o limite começou a mudar. Os 2 gigabytes (sim, o dobro logo no primeiro aniversário) viraram 7, 10 e hoje são 15 gratuitamente. Tudo para que você não precisasse fazer o que o Google nunca quis que você fizesse: deletar um e-mail.

E olha que nestes 15 gratuitos, não entram na conta nenhum documento que você produz no Drive ou qualquer foto que você armazene automaticamente no Photos. Para que você também nunca delete uma planilha, um documento ou as fotos mais importantes da sua vida. E é tudo tão bom, porque você pode buscar pelas suas fotos mais antigas e até procurar por elementos nela, como “gatos” ou “lamen”. Nos e-mails, pode até achar um pouco de quem você era em 2005 ao pesquisar por termos escritos no e-mail. E o GMail é realmente muito bom em categorizar e-mails importantes, spam e aqueles que não são nada importantes, mas também não são propriamente lixo. O Google está fazendo o que fez pelas buscas na Internet com seus e-mails e suas informações pessoais.

Para fazer isso pelos sites de Internet no passado e hoje em dia, o Google precisava efetivamente ler o conteúdo de cada um dos sites. Para fazer o mesmo pelos seus e-mails, fotos, vídeos, agenda e tudo o que uma conta puder oferecer, a necessidade é a mesma.

Uma conta para governar todas as outras

Pessoa espia através de um buraco na parede

O que todos os textos deixaram claro até agora é que as empresas do mercado de tecnologia da informação são ávidas por dados: quanto mais informações sobre o seu comportamento elas podem ter acesso, melhor elas elaboram perfis para os mais diferentes fins. Tanto internamente quanto compartilhando tais dados com outras empresas.

Em palavras mais simples, o Google garante que não há um funcionário humano lendo os seus e-mails, vendo as suas planilhas ou checando as suas fotos. Mas apenas o fato de ela dividir tais dados com outras empresas já não garante que não há exatamente pessoas vendo tudo. E no que cabe ao argumento de que são robôs que fazem o trabalho, a questão de detalhamento de perfis ainda torna possível a empresas – não apenas o Google, mas tantas outras – juntar peças que antes ficavam mais facilmente separadas, como a sua vida pessoal, o seu histórico médico e o seu score de crédito, por exemplo.

Quando você opta por concentrar diversos serviços separados em torno de uma única conta – seja ela Google, Apple, Facebook, Amazon ou Microsoft – você está dando uma grande abertura para que esta empresa organize o que recebe, colete de outras fontes dados em seu nome e negocie ao melhor preço com diversos outros interessados em saber mais sobre você – mesmo que isso não seja definido como uma venda direta.

Se você clicar nos links que deixei, verá que a metáfora de Senhor dos Anéis está implícita em vários deles. Não há realmente uma mais exata para definir onde estão os olhos destas empresas: em todos os lugares.

Precisamos discutir esta relação

casal sentado lado a lado, com mãos separadas, provavelmente discutindo o fim do relacionamento.

A ideia central da desintoxicação de dados é ajudar as pessoas a entender a sua relação com os serviços de tecnologia da informação mais populares e como podemos manter uma relação mais saudável sem abrir mão das diversas benesses que estar conectado ao mundo oferece.

Assim, é preciso encarar que serviços oferecidos pelas gigantes são muito bons, eficientes e que não é escalável imaginarmos que amanhã estaremos todos desenvolvendo códigos e utilizando GNU/Linux e apenas serviços opensource em todos os nossos dispositivos.

Mas como já começamos a desenhar personas de uso e já até começamos a mencionar substitutos para os serviços, eu gostaria que você realmente fizesse o exercício de pensar em como as dicas já compartilhadas e as que ainda serão se adequam ao seu uso pessoal. Eu mesmo não vou zerar completamente o meu uso de serviços delas. A saber: continuo utilizando MacOS; uso Google Drive para alguns arquivos, principalmente compartilhados (como as pautas do Mupoca) e planilhas para belos dashboards no Google DataStudio; o computador do trabalho é Windows e não há nenhuma possibilidade de todos migrarmos para Linux; ainda vou precisar comprar mídia em Facebook e Google porque eles constituem o destino da maior parte da verba de publicidade digital; não há como se comunicar com outras pessoas no Brasil sem o WhatsApp; até ensaiei uma volta ao Instagram; meu celular ainda roda Android, e ainda falaremos bastante sobre este assunto; o catálogo de filmes e séries da Amazon Prime realmente é ótimo e o valor é o menor de todos os serviços, sendo que ela ainda oferece o frete gratuito nas compras no site; se eu desenvolvesse mais coisas que sites simples, provavelmente dependeria bastante dos serviços da Amazon Web Services. A diferença é que cada um deles vai operar em caixas bem separadas – o máximo que for possível: e-mails diferentes, navegação isolada (quando possível) do restante da navegação web e do celular.

Com certeza o e-mail (mesmo que você não use muito, você precisa de pelo menos um para se cadastrar e receber avisos raramente úteis sobre cada um deles) não será mais Google. A parte boa é que existem muitos serviços seguros e até mesmo gratuitos para utilizar hoje em dia. A parte ruim é que requer algum esforço para conectar novamente as pontas do que uma única conta Google faz de maneira magicamente simples. No caso do GMail, é uma relação de 16 anos que terá um fim – não há como fazer isso sem algum sofrimento. Mas é o serviço mais fácil de trocar mesmo que você continue em todos os outros serviços Google.

O Photos já foi interrompido, falta deletar de fato todo o arquivo. A Agenda já saiu também, junto com os Contatos (e-mails e telefones). O YouTube ganhou uma conta somente para subir vídeos no canal Coisas da Rua – para assistir, vou manter-me anônimo com Invidious e NewPipe. Tudo será detalhado mais a frente.

Há também mais cuidados que ando tomando e que você também encontrará em qualquer guia que fale sobre privacidade na Internet: VPN, configurações finas de privacidade do navegador e do sistema operacional, DNS e tantas outras. Também teremos alguns textos breves sobre tudo isso.

Até lá, perdoe-me pelos dias sem nenhum relato: estas configurações todas estão em curso, então há dias mais ocupados fazendo as coisas mesmo. Mas vou tentando manter o blog atualizado conforme novas coisas forem surgindo.

Fotos: Carol Jeng no Unsplash, Dmitry Ratushny no Unsplash, Priscilla Du Preez no Unsplash

Por Luiz Yassuda

Autor deste site. Diariamente comentando os absurdos cotidianos lá no Twitter (@luizyassuda) e eventualmente nos podcasts Mupoca e Braincast.