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Data Detox

Uma jornada pela desintoxicação de dados

Vamos passear por iniciativas que ensinam usuários a cultivar uma relação muito mais saudável com tecnologia. É cada vez mais pertinente que mais pessoas saibam o que está em jogo.

Olá a você que está começando a leitura deste texto, o primeiro de muitos sobre o tema da desintoxicação de dados.

Se você não me conhece, eu serei muito breve nesta introdução: eu sou um profissional de comunicação apaixonado por tecnologia e por toda a promessa certa vez feita pelas mídias sociais – o que pode parecer um contrassenso, mas eu prometo que trabalhar nesta área e relatar parte da jornada faz todo o sentido. Há alguns anos eu trato do assunto, principalmente nos podcasts Mupoca e Braincast, em tópicos específicos como a discussão sobre o encândalo envolvendo Facebook e Cambridge Analytica ou um dabate sobre a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados).

E é por trabalhar na área e conhecer um pouco sobre o engenhoso mecanismo de dados e suas inúmeras possibilidades que eu me sinto tranquilo em dizer que todo mundo, todo ser humano conectado na Internet deveria no mínimo repensar o uso de ferramentas com as quais produz informações, armazena lembranças e conecta-se com amigos e outras pessoas.

Nesta jornada que se desdobrará em vários textos neste blog, você será convidado a conhecer um pouco sobre como o seu computador, o seu telefone celular e os diversos serviços digitais que você usa se conectam e trocam dados entre si, o tempo todo. O resultado é muito lucrativo para as empresas responsáveis, o suficiente para que elas permitam que a maioria dos serviços sejam gratuitos – o que seria até bonito.

Alguém mais otimista pode pensar em democratização do acesso e em evolução tecnológica. Mas também pretendo desmontar este argumento com o passar do tempo. Por enquanto, é importante dizer que muitos dos avanços democratizantes da tecnologia são fruto do esforço de uma grande comunidade de desenvolvedores que criou boa parte dos sistemas que operam o que chamamos de Internet e todos os objetos inteligentes que você pode ter na sua casa. E que todas estas partes as quais me refiro foram licenciadas com seu código aberto e gratuito para que qualquer outra pessoa pudesse partir dali e aperfeiçoar cada ingrediente para o seu uso pessoal e acrescentar algo ao legado.

Feita a introdução, vamos falar um pouco sobre o que vem por aí:

Por que começar uma jornada de desintoxicação da dados (ou Data Detox)?

foto em que um smartphone ligado está mergulhado em uma piscina, com algumas laranjas boiando ao seu redor

Não sou muito fã de dizer que vivemos um momento único na História porque foram muitas as revoluções tecnológicas na humanidade que precederam profundas mudanças da sociedade. Mas esta é a da nossa época, a que estamos vivendo, e é um momento de mudanças profundas, sim.

Criamos um mundo conectado e digital. De alguma maneira, todas as pessoas estão mais ou menos alcançáveis, todos os serviços possíveis são mais disponíveis e gozamos em média de uma qualidade de vida sem precedentes.

Por outro lado, este belo conto deixa de lado uma desigualdade social crescente em todo o mundo com a criação de oligopólios que se tornaram pedágios da conexão entre pessoas e serviços. Poucas empresas passaram a ser responsáveis por curar todo o conteúdo ao qual todas as pessoas serão expostas todos os dias durante anos. São de alguma maneira como grandes senhores feudais que taxam todo o intercâmbio de informações das redes – até mesmo a maneira como outras empresas fazem negócios entre elas e como governos se comunicam e supervisionam seus cidadãos. E para manter esta lucrativa rede de pedágios que depende de um fluxo constante de dados, há uma grande oferta de gratuidade. E-mail grátis, comunicador grátis, armazenamento de fotos grátis, documentos grátis, gestão de equipes grátis… De repente, ficamos tão presos a estes ecossistemas que a opção de sair torna-se naturalmente amedrontadora.

Você pode achar a minha metáfora feudal exagerada, mas Yuval Noah Harari vai ainda mais longe: diz que exisitirão países inteiros que serão meras Colônias dos Dados num futuro não muito distante. Se você pode se assustar agora com a ideia da tutela máxima de tão poucas empresas em governos no mundo todo sendo tratada como uma distopia, já estamos vivendo intensamente estas mudanças: assistimos as eleições norteamericanas de 2016, o Brexit, diversas desestabilizações de governos mundo afora e, claro, todo o nosso processo desencadeado pelo impeachment e que culminou na eleição de 2018.

“O que vai acontecer a políticos de seu país em vinte anos, quando alguém em San Francisco ou Beijing souber todo o histórico pessoal e médico de cada legislador, de cada juiz e de cada jornalista, incluindo todas as suas peripécias sexuais, todas as suas fraquezas mentais e todas as suas relações corruptas? Este ainda será um país independente ou terá se tornado uma mera Colônia dos Dados?”

Yuval Noah Harari – Como sobreviver ao Século XXI (apresentação durante o Fórum Econômico Mundial em Janeiro/2020)

É claro que há muita resistência. Desde leis que defendam os cidadãos da coleta e uso indiscriminados de dados por empresas de tecnologia a iniciativas que procuram ensinar os usuários de serviços digitais conectados a cultivar uma relação muito mais saudável até mesmo com as grandes empresas de tecnologia. Esta é uma discussão atual e é cada vez mais pertinente que mais pessoas saibam o maior número de detalhes possível sobre o que está em jogo.

Esta jornada é, assim, um convite: não é exatamente fácil, não é rápido, mas planejar a sua relação com os seus serviços digitais é como planejar a viagem dos seus sonhos: há a opção de comprar um pacote com as opções populares inclusas e há a opção de se dedicar a achar o melhor vôo, a melhor hospedagem e os melhores restaurantes e atividades turísticas que o seu dinheiro puder pagar e que tiverem importância para você. Ver as coisas funcionando com a praticidade que a tecnologia pressupõe, mas com um mecanismo que foi planejado (e em parte até mesmo montado) por você dá mais trabalho, mas pode render experiências muito recompensadoras.

E se estou reforçando metáforas em quase todos os parágrafos, trata-se de uma das ideias que estarão presentes nos futuros textos: uma linguagem que deixe o tecniquês de lado (até porque eu não sou fluente nele) para mostrar que a operação de tecnologia é possível a qualquer pessoa disposta a aprender.

Outra coisa que também deixo claro desde agora é que não vou propor um corte de toda e qualquer relação com as grandes empresas de tecnologia. Primeiro porque há alguns serviços que realmente são muito difíceis de substituir. Segundo, porque o principal ponto da jornada de Data Detox é entender melhor a relação pessoal com a tecnologia: a minha não será a mesma que a sua. Cada um de nós precisa avaliar o que está disposto a abrir mão e a manter nesta balança entre privacidade e comodidade. Sendo uma escolha mais consciente, eu já acredito ser um bom começo.

Como será a jornada? Haverá capítulos?

A ideia de começar a relatar algumas experiências neste blog me permite escrever de uma maneira um pouco mais solta. Primeiro porque boa parte das experiências ainda estão em curso, e também porque estou tentando várias coisas ao mesmo tempo.

Claro que com o tempo fica mais fácil organizar os materiais. De qualquer maneira, os textos passarão pelos seguintes tópicos:

  • Conta Google – uma relação de 16 anos que precisa ser discutida.
  • Um celular Android pode ser um celular mais livre?
  • Apple é alternativa?
  • O que fiz com Facebook, Instagram e Whatsapp desde 2018?
  • Cuidados gerais com a navegação: buscas, compras e até aquele momento relax de assistir sua série favorita.

Os maiores capítulos, por assim dizer, serão aqueles sobre a Conta Google, Android e Facebook, que são experimentos já realizados ou acontecendo neste momento. Apple será uma rápida pincelada – tive uma volta ao iPhone que teve momentos de entusiamos e frustração entre o ano passado e este. Cuidados gerais de navegação constituem um tema que eu acabo discutindo mais nos podcasts, mas que poderão ser um capítulo breve.

Por que quando se fala em Data Detox geralmente foca-se Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft? Trocar a rede social norteamericana pela chinesa resolve?

Microscópio analisando lâminas que contém as logomarcas do GAFAM: Google, Microsoft, Amazon, Apple e Facebook.

Quando falamos em smartphones no mundo, falamos basicamente em duas empresas (Apple e Google). O Facebook é a empresa com a maior rede social e o comunicador instantâneo mais utilizado no planeta. Microsoft ainda tem imenso prestígio nas soluções corporativas (e a alternativa tem sido o Google) e também tem enorme participação em uma série de serviços digitais, como o Linkedin. E a Amazon é a empresa responsável por uma fatia cada vez maior do varejo no planeta, além de ser a responsável pela infraestrutura considerada invisível para os usuários de uma série de serviços digitais.

Estas empresas formam um forte oligopólio tecnológico, frequentemente chamado pelas publicações sobre o assunto pelo acrônimo GAFA ou GAFAM (sim, pobre Microsoft que às vezes é deixada de lado). Para nós que vivemos na porção ocidental do planeta, estas empresas são responsáveis por profundas mudanças na sociedade neste século.

Mas o que esta jornada deixará um pouco mais claro é que a desintoxicação de dados é um processo bem amplo. Então não se trata de trocar seis por meia-dúzia: a mesma lógica se aplica aos enormes players chineses, talvez menos conhecidos pelas suas marcas, mas presentes em uma série de serviços que utilizamos no dia-a-dia e também a outras empresas menores do que estas gigantes, mas igualmente sedentas por dados e com alguns outros problemas deixados em nosso caminho, como outras redes sociais, VOD (video on demand, serviços como YouTube e Netflix) e empresas de transporte, de hospedagem e de entregas, por exemplo.

Fotos: Agê Barros em Unsplash, Khiet Tam em Unsplash, Morning Brew em Unsplash.

Por Luiz Yassuda

Autor deste site. Diariamente comentando os absurdos cotidianos lá no Twitter (@luizyassuda) e eventualmente nos podcasts Mupoca e Braincast.