Categorias
Data Detox

Desintoxicação de dados – O que é feito com os seus dados?

Toda empresa que coleta dados poderá passar a impressão que os seus dados somente serão utilizados por ela. Contudo, não é assim que a coisa funciona.

Claro, começamos a falar o quanto é importante cuidar bem dos dados que você compartilha na Internet, mas eu talvez não tenha deixado muito claro o que é feito com os dados que as mais diversas empresas de tecnologia coletam.

Se você procurar nos Termos de Uso da maioria dos serviços digitais, vai encontrar algumas linhas quase genéricas que afirmam que o uso dos dados coletados servem para aperfeiçoar o serviço prestado por essas empresas e que pode ser compartilhado com serviços externos para o mesmo fim. Isso não está necessariamente incorreto, mas omite qual é o tipo de serviço prestado por estas empresas que de fato os seus dados aperfeiçoam.

As próximas linhas poderão conter simplificações para um melhor entendimento de como algumas tecnologias operam. Entenda que a minha preocupação ao escrever estes textos é tornar estes conceitos mais palpáveis por qualquer um que se interesse pelo assunto. Como afirmei na primeira parte desta saga: eu mesmo não domino o tecniquês todo.

Seus dados não estão isolados

Um homem analisa um dashboard de dados genérico. Foto que apenas ilustra que estamos falando de dados.

Toda empresa que coleta dados poderá passar a impressão que os seus dados somente serão utilizados por ela. Contudo, não é assim que a coisa funciona. Qualquer empresa que veicule propaganda na Internet está, no mínimo, compartilhando com pelo menos mais uma empresa os seus dados de navegação porque a propaganda será paga, por exemplo, pelos cadastros no sistema do anunciante que aquelas propagandas geraram.

Vamos supor que eu vou anunciar que estou escrevendo estes textos sobre privacidade e desintoxicação de dados e que quero atingir um público que possa se interessar por este tema. Decido então anunciar em buscas, isto é, colocar um link patrocinado lá no topo dos resultados de buscas para algumas pessoas que procurarem por termos como “privacidade online” e diversos derivados; e banners em diversos sites.

No início da Internet comercial, eu entraria em contato com o site de buscas – isso mesmo, o grande detentor de praticamente todas as buscas online (exceto as minhas e de mais uma meia dúzia de pessoas que estão incentivando o DuckDuckGo) e com cada portal e site onde eu gostaria de anunciar. Eles poderiam ofertar um preço por impressões – número de vezes que a propaganda será exibida – ou pelos cliques que as propagandas gerassem e que viessem diretamente para o meu site. Este cenário mudou radicalmente.

Hoje em dia, eu posso resolver tudo isso no Google: posso escolher as palavras-chave das buscas e também orientar a ferramenta a exibir banners em diversos sites. O trabalho que isso dá? Quase nenhum: há um passo a passo bem tranquilo de ser seguido. Para tornar a oferta ainda mais irresistível, o Google pode me ajudar a conferir quem estou atingindo, quem está clicando e quais dos textos estas pessoas leram, bastando apenas eu instalar uma tag nas minhas páginas.

Posso comprar quase a mesma coisa no Facebook que, além dos sites, também me oferece exibir os anúncios nas suas badaladas redes sociais. A lógica é a mesma: coloco uma tag nas minhas páginas, compro a perfórmance.

Os sites onde as propagandas serão inseridas, por sua vez, oferecem a estas empresas as informações necessárias sobre quem acessa e como se comportam seus usuários também por meio de uma tag. Além disso, mesmo que não veiculem qualquer tipo de propaganda, os sites costumam instalar as tags de Google e Facebook (entre tantas outras existentes no mercado) porque também obtém delas informações úteis para os seus negócios. É muito raro você encontrar um site na Internet sem, no mínimo, a tag de rastreamento do Google Analytics, que oferece estas informações quantitativas sobre as visitas e consumo de conteúdo, e o pixel do Facebook, que oferece dados demográficos e que outros interesses na rede social o público mantém.

Outra fundamental diferença em como veicular propagandas na Internet hoje é que eu posso escolher, em vez dos sites onde quero que o banner apareça, o tipo de pessoa que eu gostaria de impactar de acordo com os seus costumes digitais. Pessoas que tenham determinados perfis de compra ou mostrem interesses por determinados temas. É por isso que se eu e você entrarmos ao mesmo tempo em um determinado site, as propagandas que veremos serão bem diferentes, em qualquer momento do dia. A não ser que o anunciante tenha comprado o espaço todo durante o dia inteiro, coisa reservada a tão poucos sites atualmente que praticamente não entram na conta.

Para a engrenagem funcionar perfeitamente, portanto, estas poucas empresas coletam dados em virtualmente todos os becos do mundo. Tudo o que você faz na Internet, em qualquer parte dela, até mesmo se está acessando este site a partir de uma busca ou em seu navegador Google Chrome com sua conta Google registrada (eu só posso garantir a sua privacidade com as ferramentas que posso controlar, você precisa fazer o resto). Tudo vira um registro.

Mas tudo bem, não é? Ainda bem que são as únicas informações pessoais que você compartilha com Google e Facebook (risos).

Seus dados, na realidade, são disputados como um troféu

É claro que há pormenores legais que distinguem com exatidão o que é vender dados ou fornecer acesso a dados, mas estamos simplificando para um melhor entendimento das coisas: sim, há um riquíssimo mercado de todos os tipos de dados sobre comportamento humano.

E há programas especializados em organizar diferentes fontes de dados para, por exemplo, melhor dados sobre perfis ou delimitar o que se chama de cluster: um agrupamento de pessoas de comportamentos específicos similares. A tese da propaganda é que é muito mais efetivo você anunciar diferentes mensagens para diferentes clusters do que dar um tiro único, como acontecia na época em que só tínhamos propaganda em TV, rádio e impressos. Um mesmo anunciante, numa mesma campanha, pode exibir para mim determinadas mensagens e outras para você, por termos comportamentos digitais distintos.

É verdade que o conceito de compra ou mineração de dados não é novo: desde, sei lá, sempre era possível comprar bases que relacionavam CPF e telefones, posteriormente e-mails. Também há os comércios legais disso tudo: mailings específicos de quem trabalha em redação de jornais para assessorias de imprensa é um dos que mais tive contato. Mas acredite quando eu digo que é possível comprar dados, mesmo que anonimizados (isto é, sem conter nele informações que identifiquem o indivíduo diretamente, como documentos, e-mail ou IP) de qualquer coisa:

  • Compras com cartão de crédito
  • Dívidas e inadimplência
  • Tratamento de diversas informações públicas, como dados de abertura de empresas e contatos associados a uma determinado CPF.
  • Dados de navegação em sites.
  • Dados de navegação em aplicativos.
  • O que mais a sua criatividade puder imaginar.

Quando pensamos nas gigantes de tecnologia, entendemos que elas possuem um acesso mais fundo sobre cada um de nós e, portanto, têm a capacidade de relacionar estes comportamentos às fotos que tiramos e compartilhamos, aos e-mails e mensagens que enviamos e recebemos, aos locais que frequentamos, às pessoas que nos conectamos digitalmente e pessoalmente, aos documentos e planilhas produzidos e/ou estocados em serviços a este fim, entre outras coisas.

É um tanto quanto inocente imaginar que tudo isso tenha como único intuito ajudar uma Coca-Cola a vender melhor a Coca-Cola para quem bebe Coca-Cola.

Como no exemplo da propaganda, também sabemos que o conteúdo que nos é ofertado em redes sociais, nas buscas e plataformas como o YouTube é diferente para cada indivíduo: teremos contato com o conteúdo que é esculpido pelos nossos interesses para nos manter o maior tempo conectados gerando mais e mais dados, cliques e, assim, dinheiro para estas empresas.

Entender estes conceitos é necessário para enxergar a dimensão do estrago que isto está gerando e que ainda pode gerar.

Do otimismo ao pesadelo

Em dezembro de 2010, eu defendi o meu trabalho de conclusão da graduação em Publicidade e Propaganda com uma ideia de que andarmos o tempo todo com celulares – o mercado de smartphones estava decolando – nas mãos, produzindo e consumindo conteúdo com uma camada extra de informações sobre onde isso estava acontecendo e que pessoas estavam ao redor trazia o mesmo tipo de novidade que cada grande mídia trouxe: estávamos testemunhando o nascimento de algo tão grande quanto o cinema, a televisão e a própria Internet.

Naquele momento, entretanto, eu era um otimista. Apostava em uma melhor relação de empresas com seus consumidores, em mais transparência e em mais democracia direta. O que me levava a acreditar em tudo isso era o que podíamos ler sobre as empresas que já começavam a dominar a coleta e processamento de tais dados: plataformas abertas e um ecossistema em que diferentes pares colaboravam para aperfeiçoamento dos mais variados tipos de ferramentas. Vejo que é um conto de fadas hoje em dia: como pude pensar que o grande capital faria um mea culpa desses?

O que vimos na última década foi uma consolidação das gigantescas empresas de tecnologia. Existir até mesmo como competidor delas exige um nível de cooperação com suas regras – o que inclui este compartilhamento de dados do que usuários fazem em outras plataformas – inimaginável num mercado que se chame de livre.

Você pode me apontar que hoje existem empresas imensas como Uber, AirBNB e todas aquelas do maior clichê das apresentações sobre inovação (“a maior empresa de transporte do mundo não tem um carro, a maior empresa de hotelaria do mundo não tem um imóvel…”), mas todas são extremamente dependentes de ferramentas das gigantes e operam em seus ecossistemas, compartilhando assim um amontoado de dados com elas. Não é à toa que o termo antitruste voltou à moda.

O que dizer então de empresas menores, como os grandes e médios jornais, por exemplo? Poderiam peitar a dominância de Google e Facebook na publicidade digital? Poderiam manter com tranquilidade seu jornalismo de qualidade ganhando a mesma coisa do que gente mal-intencionada fabricando notícias de dentro de seu quarto em algum rincão deste mundo? E as empresas menores ainda, aquelas que são ignoradas por bancos e planos de socorro dos governos, mas que respondem pela maioria dos empregos formais no país?

Os resultados disso pipocam aqui e acolá, a gente só começa a perceber o resultado efetivo do tipo de mundo que esta concentração está ajudando a criar. Enquanto poderíamos estar vibrando com o acesso mais democrático das pessoas às informações, estamos na realidade lidando com pós-verdade, fake news e gabinetes do ódio. Enquanto poderíamos viver contando com uma diversidade de negócios extremamente especializados através do comércio eletrônico, o pequeno comércio segue sendo esmagado por um número cada vez maior de pedágios com nomes bonitos como marketplaces e mobile payments. Vale até para a pizza que você costumava telefonar para pedir e que agora é obrigada a dar dois pedaços da redonda limpinhos para o aplicativo moderno que você opera no seu celular (que continua com a função de ligação, por sinal).

Entenda, ilustríssimo leitor, que não estou escrevendo este texto para demonizar e exorcizar um grande império do mal da tecnologia. Empresas de todos os ramos fazem experimentos com dados semelhantes apenas para continuar vetando ou dificultando (sempre com justificativa bem técnica) o acesso de cidadãos a vantagens reservadas a uma casta, como crédito a preços justos, saúde e educação de qualidade, políticas públicas, entre tantas outras coisas. Você entende, no entanto, que ainda vai precisar de um banco, de quem cuide de seus investimentos (se você puder investir), de um plano de saúde (se você puder pagar) e do serviço de diversas concessionárias de serviços no fim das contas.

O intuito desta saga é começarmos a encarar mais criticamente as empresas de tecnologia, com a mesma desconfiança que você e eu mantemos em relação ao gerente do banco, à pessoa que vem lhe vender um esquema de pirâmide ou um investimento incrível em criptomoedas, àquela oferta de telemarketing e à ouvidoria do plano de saúde ou dos serviços básicos como telefonia, água e luz quando mais precisa.

No próximo texto eu também prometo partir para exemplos mais técnicos também. Mas acho que esta foi uma nova introdução ao assunto bastante necessária. Se você gostou do que leu por aqui, e quer saber mais sobre o assunto:

Fotos: Stephen Dawson no Unsplash e Adeolu Eletu no Unsplash

Por Luiz Yassuda

Autor deste site. Diariamente comentando os absurdos cotidianos lá no Twitter (@luizyassuda) e eventualmente nos podcasts Mupoca e Braincast.